Monthly Archives: Maio 2010

A Índia Peruana

Dias atrás, tentando colher, cuidadosamente, algo valoroso em meio a tanta baboseira depositada no Twitter, fui presenteado com este lindo e profundo poema. E para falar do que se trata o texto, eu prefiro deixar por conta das próprias palavras de Ricardo Gondim (@gondimricardo), quem me presenteou com este belo achado.
Boa Leitura.

Graça e Paz,
Emerson de Oliveira Souza

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A índia idosa e seu cobertor repleto de dor

Em retiro espiritual (1970), Pe François Varillon citou um poema escrito por um russo que estava de passagem por Lima, Peru. O russo viu, nessa cidade, uma moradora de rua que, para se aquecer, se enrolou em jornais que havia encontrado espalhados pelo chão.

Naquela noite, como em muitas outras, seu cobertor era a atualidade do mundo. Sobre seu corpo miserável estavam escritos todos os acontecimentos do mundo, todo o pecado do mundo. Ela estava enrolada, de certo modo, no mal do dia. Sua manta era composta de sofrimento, descaso e injustiça. Aquela desabrigada era metáfora viva de todo o mal que vem impresso nos jornais. A maldade, de certa forma a abrigava da própria inclemência da vida.

Estamos, portanto, em Lima, 1970:

À hora em que morrem os jornais, porque a noite
os torna detritos,
à hora em que o cão, com um resto de comida
entre os dentes, para e vigia,
desconfiado, cada um dos meus passos,
à hora em que despertam todos os vis instintos,
os instintos que, hipocritamente,
se escondem durante o dia,
à hora em que os motoristas de taxi me gritam
“Eh, gringo, queres uma mocinha peruana?
Verás, é chocolate derretido”.

À hora em que já não funcionam as estações de correio
e em que só o telegráfo prossegue sua vigília,
à hora em que um camponês, enrolado em seu poncho,
dormita, encostado a alguém,
imóvel como uma estátua,
para ele totalmente desconhecido,
à hora em que as prostitutas e as musas
tiram maquilagem do rosto,
à hora em que já preparam os detritos de amanhã,
com os seus grandes títulos de primeira página,
à hora em que tudo é visível e invisível,
eu vagueio sem destino e não venho de parte nenhuma,
vagueio fatigado, sozinho, como um cão vadio,
vagueio pelas avenidas noturnas de Lima que se parecem,
então, com um cemitério dos contos.

A rua está toda suja, como de um escarro,
pelo tapete de cascas de laranja,
a rua cheira mal como as latrinas de um imenso estádio.
Mas para, repara.

Uma silhueta humana advinha-se através
de um monte de jornais mortos.

Ali, aninhada e muda; sem se queixar de nada
nem de ninguém,
uma mulher idosa fez um poncho,
um poncho feito de uma notícia sensacional
do dia que passou,
A velha embrulhou-se nele para escapar ao frio,
agasalhou-se na extrema direita e na extrema esquerda,
até aos olhos.

A extrema direita e a extrema esquerda, para a mulher,
são a mesma coisa.

Para ela, a única coisa importante, é ter menos frio.

A mulher idosa embrulhou-se nos escândalos e nas intrigas
e nos truques do esporte, até rente ao chão.

Comparados com as pernas famosas da manequim inglesa,
Twiggy, os seus pés descalços levam a melhor.

Os automóveis, os submarinos, os foguetes,
esmagam-na com o seu peso
e fazem-na sumir-se no asfalto da rua.

As corridas, os iates, os strip-teases e os banqueiros
pesam sobre os seus ombros de camponesa.

Sobre as suas costas, Rockefeller, Onassis, Dupont,
com o seu sorriso bovino,
saboreiam o seu cocktail.

Sobre o seu corpo, todo entorpecido pelo frio,
Mao e Nixon jogam, prazenteiros,
uma partida de pingue-pongue.

E a pálida claridade do banco espreita, dolorosamente,
por detrás da montra, como da coluna vertebral
desta velhinha ressuma, ainda quente,
o sangue do Vietnam.

Sob imundície e a vergonha desta feira do mundo,
sem força para compreender todo este lodo,
a velhinha olha, como uma lama em apuros,
antiga índia, virgem de dor, mãe da humanidade.

Verga-se sob o peso das suas mentiras,
a tatuagem violenta do seu título, fere-a.

Mas ela é como uma estátua viva,
a estátua da verdade do mundo que repousa
sob o montão de mentiras.

Ó claridade pálida do banco, tu iluminas o seu seio fatigado.
E tu, lama da montra, liberta-a
desta imundície dourada que a cobre,
leva-a contigo para a montanha da salvação.

Eu, o representante de um grande país,
inclino, silenciosamente, a minha cabeça,
como uma criança perdida,
diante desse rosto doloroso,
do seu rosto cor de cobre, sulcado de rugas.

Porque muito no fundo desta mulher idosa esconde-se
ciosamente, esconde-se,
respirando em segredo, o país maior do mundo,
a alma humana.

“Eh, gringo, não queres uma pequena peruana?”
grita-me ele, novamente, com um assobio.

Mas eu, fico ali, sem me mexer, sem poder mexer-me.
Não posso explicar ao motorista de taxi
que a minha peruana, já a encontrei.

Fonte: Ricardo gondim

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Jesus veio na plenitude dos tempos…

Dia desses, ouvi uma passagem da bíblia que me deixou intrigado, como várias passagens o fazem. Fiquei viajando, pensando na profundidade da visão de Deus que rasga a vida em suas infinitas combinações e possibilidades e estabelece de uma forma soberana e sutil sua intervenção.

A passagem referida acima:

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei.” (Gálatas 4:4)

A plenitude dos tempos! Somente Deus para transitar sobre tamanha dimensão, quem somos nós para resumirmos em teses tamanha realidade?

Convenientemente me deparei com esse texto essa semana. Achei muito bacana, embora se configure como uma humilde sugestão dentro das várias possibilidades. Espero que gostem.
Graça e Paz,

Emerson de Oliveira

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Jesus não veio durante a era da comunicação global?

Você já se perguntou por que Jesus não veio durante a era da comunicação global? Se Deus queria difundir a mensagem sobre a sua graça, não teria sido mais estratégico esperar pela TV por satélite e pela Internet? Jesus poderia ter feito todos os seus milagres no ar, impressionando telespectadores do mundo todo. Certamente a palavra teria se espalhado como fogo descontrolado, e, embora ainda houvesse incrédulos e céticos, milhões sintonizariam para assistir. Seus ensinos não somente seriam difundidos ao redor do mundo, como gravados e preservados perfeitamente. Certamente Jesus faria um trabalho melhor do que outros têm feito em seu lugar apresentando-se à sua audiência.

Assim, se Deus queria que as pessoas de todas as partes ouvissem e aprendessem sobre o amor e graça, por que Jesus não veio em um século de comunicação de massa como o nosso?

Estou convencido de que não foi porque Deus cometeu um erro estratégico de marketing. Tenho certeza de que Ele sabia exatamente o que estava fazendo, como as Escrituras declaram: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho”. Mas, talvez Deus pretendesse que a mensagem que tinha em mente não viesse embrulhada somente em palavras, mas sempre por meio de um Corpo vivo e crescente. Talvez a verdadeira mensagem de vida de Deus, encontrada no evangelho, seja melhor comunicada de vida para vida. Talvez a verdade de que existe um Deus que ama você e o ensinará a amar os outros conforme você o seguir seja representada com precisão de pessoa para pessoa. Talvez seja por isso que Deus confiou sua mensagem não à comunicação de massa, mas a pescadores simples, cobradores de impostos que roubavam, prostitutas e fanáticos desencaminhados, e ela os mudou.

John Burke

Fonte: Solomon1

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A Reforma

“A Reforma foi uma ocasião em que os homens ficaram cegos, embriagados por descobrir, no porão empoeirado do medievalismo tardio, uma adega repleta de graça envelhecida mil e quinhentos anos, com teor alcoólico 100% – garrafa após garrafa de pura Escritura destilada, um gole da qual bastava para convencer qualquer um de que Deus nos salva sem precisar de ajuda. A palavra do evangelho – depois de todos aqueles séculos de tentar elevar-se ao céu preocupando-se com a perfeição de seus cadarços – tornou-se repentinamente um anúncio direto de que os salvos já estavam em casa mesmo antes de começarem (…) A graça deve ser bebida pura: sem água, sem gelo, e seguramente sem água tônica; não se permite que nem bondade, nem maldade, nem as flores que desabrocham na primavera da superespiritualidade entrem no preparo”

Robert Farrar Capon

Fonte: http://rodsilva.wordpress.com

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Ressurreição: Rob Bell

Novo vídeo (não sei o quanto!) do Pastor Rob Bell, do ministério Mars Hill Bible Church.

Acho que o pastor Rob Bell dispensa apresentação, aqui mesmo no Blog cheguei a postar um tímido perfil do Pastor.

Ressurreição, obviamente, este é o tema do vídeo, mas o que me chamou a atenção neste vídeo foi a diferença de linguagem entre ele e seus antecessores. Se antes Rob Bell tinha como pano de fundo lindas cenas do cotidiano, ambientes públicos na grande maioria; neste vídeo, por sua vez, Bell aparece em um estúdio, num ambiente asséptico, e com uma dinâmica bem mais acelerada que o costumeiro.

Bem, tradicional que sou, prefiro a fórmula anterior de Bell; fórmula que o tornou conhecido, mas reconheço o valor da ousadia (sem heresias) para as coisas do reino de Deus.

Espero que curtam e comentem.
Graça e Paz!
Emerson de Oliveira Souza

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O propósito de Deus

“Deixemos que o Espírito Santo nos prepare através das disciplinas da vida; e quando tiver sido dado ao mármore o toque final, será fácil para DEUS colocar-nos no pedestal e ajustar-nos em nosso nicho.”
(Lettie Cowman)

Já notou como vários fatos da vida são irônicos, e aparentemente antagônicos? Por exemplo, você quebra um braço, e o médico, para curá-lo, tem que provocar mais dor para colocá-lo no lugar. Ah! Você nunca quebrou um braço? Vejamos então… Espinho, quem nunca sentiu o infortúnio da dor de um espinho? Farpa também serve! Neste caso, da farpa ou espinho, o mesmo princípio se aplica, para retirá-lo: mais dor.

Assim como nestes dois casos, o princípio de: PROVOCAR UMA PORÇÃO DE DOR TEMPORÁRIA EM VISTA DE UM BEM MAIOR, também se aplica na trato de Deus com nossas vidas; para quem conhece, a velha ilustração do vaso e o oleiro, encontrada em Jeremias 18, testifica isso.

Deus é um pai justo e bondoso, e como tal não nos deixaria sem referenciais. Além das escrituras (referencial maior e suficiente), acredito que Deus nos dispõe vários sinais que indicam seus propósitos, acredito que vários deles estão dispostos a nossa volta, na natureza; seria sábio então tentarmos observar e absorver estes vários códigos disponíveis e que, por essência, testificam o caráter de nosso Deus (tudo à luz das escrituras, é claro!). E pensemos juntos irmãos: se a natureza vem de Deus e, ao contrario de nós (homens), ela não se rebelou contra os propósitos do Pai, instituídos no princípio de tudo, é muito provável podermos encontrar traços desse criador nesta criação; afinal Ele não criaria nada que fugisse de seu caráter e propósito. Poderia Deus criar algo que testificasse contra Ele mesmo?

“… Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.” (Mateus 12:25)

O próprio Jesus, por diversas vezes buscou na natureza traços que testificassem o caráter ou propósito de Deus:

“… O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou, e semeou no seu campo; o qual é realmente a menor de todas as sementes; mas, depois de ter crescido, é a maior das hortaliças, e faz-se árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.” (Mateus 13: 31.32)

Observem as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem juntam em celeiros, o seu Pai celeste, no entanto, as alimenta. Vocês não valem muito mais do que elas? … E por que se preocupam com a roupa? Observem os lírios do campo como crescem: Não trabalham, nem fiam; digo-lhes, porém, que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, vestiu-se como um deles. (Mateus 6: 26.28.29)

O processo. Se há um traço ou aspecto interessante na natureza é o processo; toda ela (a natureza) caminha por meio de processos (longos ou não); nada surge de um dia para o outro, de repente; ou você já se assustou ao acordar pela manhã e encontrar uma árvore, que nasceu da noite para o dia no meio da sua sala? Além disso, percebo que nada na natureza surge no apogeu da forma, por exemplo: uma árvore não é gerada como árvore (propósito maior do processo), mas antes, por meio de um processo longo e vagaroso, ela vai se formatando como tal, primeiro como uma simples e minúscula semente, por fim, uma frondosa e frutífera árvore. E isso se aplica às diversas dimensões da vida: uma pedra é formada através de um lentíssimo e fascinante processo; assim como os animais (num processo bem menos lento, é verdade), que derivam de substâncias microscópicas, para enfim se tornarem geradores de vidas.

Um processo implica movimento, e movimento implica deslocar-se uma posição ou condição para outra. E fato é que estas várias posições e/ou condições são distintas entre si, caso contrário, não se estabeleceriam como um processo. E onde quero chegar? Irmãos, por diversas vezes Deus nos chama a caminhar, a sair de uma situação de conforto e nos expormos, em vista de um crescimento e/ou amadurecimento. Mais uma vez absorvemos a natureza: A condição de um fruto é mais do que conveniente não é mesmo? Ligada diretamente a sua mãe (árvore) que o nutre e o sustenta dia e noite, sem esforço nem sacrifício; até que Deus o chama a cumprir seu propósito; então o fruto gradativamente perde sua beleza, separa-se da mãe e morre; morre de uma condição menor, voltada para satisfazer-se, e nasce para uma condição maior, generosa, geradora de vida. Isso testifica o ideal de Jesus para nossa vida: mortificar o ego, o interesse próprio, em vista do nascimento da vida de Cristo em nós, o que irá gerar vidas.

“… Quando o mestre-sala provou a água tornada em vinho (…) chamou o mestre-sala ao noivo e lhe disse: Todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.” (João 2: 9-10)

Encontramos nesse primeiro milagre de Jesus a marca que baliza todo o seu ministério: A TRASNFORMAÇÃO. E na verdade, podemos observar que a transformação não é mais do que um processo; e como já vimos, implica em deslocar-se uma posição ou condição para outra. Mas indo além do que já tratamos, esse primeiro milagre de Jesus nos sugere algo a mais, a transformação da água em vinho não indica uma transformação pura e simplesmente, mas uma transformação para algo melhor, ou seja: uma evolução. Então, assim como no exemplo que já vimos, da semente que se transforma em árvore, podemos deduzir que Jesus deseja a nossa evolução, ao mortificarmos algo menor em nós (nosso ego), e quando é gerado algo superior, da parte D’ele, em nós (uma nova vida em Cristo).

E como mortificar algo em nós sem a dor? Em verdade não há como evitar a dor, e a questão se sustenta não nessa pergunta, mas em outra: Qual o propósito disso?

Lembra da ironia e antagonismo do início do texto? É exatamente essa a marca de Cristo em uma vida, quando a pessoa decide pelo caminho estreito, quando ela decide (ou aceita) pela dor em vista de cumprir as ordenanças de Cristo. Só Ele (Cristo) é capaz de nos convencer a perdoar quando na verdade queremos sangue; só Ele é capaz de nos santificar quando em nós só existem pecados. Por isso uma verdade precisa ser revelada, a dor não pode ser evitada, mas aonde ela irá nos levar é o que varia. Você poderia ser um fruto qualquer e decidir ficar agarradinha numa árvore por toda a eternidade, mas involuntariamente você seria chamado ao chão. Um fruto não poderia decidir evoluir ou não, e acabaria se tornando uma árvore (afinal ela não se rebela contra o seu criador). Mas sobre nós pesa uma responsabilidade, como esse fruto também somos chamados ao chão (às dores e à mudança), mas em nós repousa o poder de decidir seguir o propósito de Cristo ou não.

E que propósito seria esse? Bem, ele (o propósito) descansa em cada aspecto da natureza à nossa volta. E esse propósito nada mais é do que nos achegarmos a Ele, evoluirmos, e sermos mais parecidos com ele; condição que deixamos lá nó início de tudo, quando trocamos Deus por um Fruto.

“Eu sou a videira verdadeira e Meu Pai é o AGRICULTOR. Toda a vara que em Mim não dá fruto, Ele corta-a, e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto.”
(João 15: 1-2)

É assim que Deus trabalha em nós, podando e lapidando as arestas que nós mesmos construímos.

Graça e Paz,
Emerson de Oliveira

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